Minha esposa lutava pela vida na sala de cirurgia… enquanto eu estava em um hotel de luxo com outra mulher. Então meu melhor amigo se encarregou de me fazer perder tudo.

Minha esposa lutava pela vida na sala de cirurgia… enquanto eu estava em um hotel de luxo com outra mulher. Então meu melhor amigo se encarregou de me fazer perder tudo.

PARTE 1

“Se sua esposa morrer esta noite, pelo menos tenha a vergonha de atender o telefone, covarde.”

Foi a primeira coisa que ouvi às 2h17 da madrugada.

Eu estava em uma suíte de luxo em Punta Mita, com vista para o mar, uma taça de champanhe caro sobre a mesa e uma mulher dormindo ao meu lado que não era minha esposa.

Meu telefone já estava vibrando havia quase meia hora sobre o criado-mudo.

Mauricio.

Meu melhor amigo desde a universidade. O homem que me emprestou dinheiro quando eu não tinha nem para pagar o aluguel. O único que sabia de onde eu vinha antes de me tornar “don Jorge Ramírez”, empresário respeitado de Guadalajara.

Atendi irritado, mais pela insistência do que por preocupação.

— O que você quer, Mau? É tardíssimo.

A voz dele não tinha sono. Tinha raiva.

— Onde você está, Jorge?

Senti um golpe no estômago, mas menti como já tinha virado costume.

— Em Monterrey. Na convenção de construção. Eu já tinha te dito.

Houve um silêncio gelado.

— Não tente me fazer de idiota. Elena está no hospital.

Elena.

Minha esposa.

A mulher que vendeu seus brincos de ouro para que eu pudesse pagar minha primeira licença de obra. A que cozinhava feijão à meia-noite quando eu convidava clientes sem ter dinheiro para um restaurante. A que suportou cortes de luz, dívidas, zombarias e promessas vazias enquanto todos diziam que eu nunca chegaria a lugar nenhum.

E eu, naquela noite, havia trocado tudo isso por um quarto de frente para o Pacífico e por Valeria, uma mulher vinte anos mais jovem que ria das minhas piadas como se eu fosse invencível.

— O que aconteceu? — perguntei.

Mas não soei assustado.

Soei obrigado.

— Ela desmaiou em casa. Doña Carmen a encontrou caída no pátio e me ligou. É uma infecção forte, o apêndice complicou. Vão levá-la para a cirurgia agora, mas precisam de autorização.

Sentei-me na cama.

Valeria se mexeu entre os lençóis brancos. No pulso dela brilhava uma pulseira que eu havia comprado com o cartão da conta que dividia com Elena.

Por um segundo, pensei em me levantar. Vestir-me. Procurar um táxi para o aeroporto. Fazer a coisa certa, mesmo que tarde.

Mas então olhei para o quarto.

A vista para o mar. A cama macia. A garrafa aberta. A vida falsa onde ninguém me cobrava nada.

E escolhi a mim mesmo.

— Não posso sair — menti. — Tem tempestade. Cancelaram os voos. Assine por mim, por favor.

Mauricio respirou forte.

— Sua esposa pode morrer esta noite, Jorge.

Fechei os olhos.

— Faça o que for necessário. Eu pago tudo.

E desliguei.

Assim de fácil.

Assim de miserável.

Valeria abriu os olhos de leve.

— Está tudo bem, amor?

Olhei para o telefone, depois para ela.

— Sim. Nada importante.

Nada importante.

Minha esposa estava entrando em cirurgia e eu a chamei de “nada importante”.

Desliguei meu celular principal, como se apagar a tela pudesse apagar a culpa. Naquela noite bebi, ri e gastei dinheiro que não era só meu. Convenci-me de que, quando voltasse, poderia inventar uma desculpa, abraçar Elena, pagar a conta do hospital e continuar sendo o homem respeitável que todos acreditavam que eu era.

Mas, enquanto eu afundava na minha própria vergonha, em um hospital de Guadalajara, sob luzes frias, Mauricio não apenas assinava uma autorização médica.

Também começava a preparar a minha queda.

Três dias depois, voltei.

No avião, ensaiei minha expressão no reflexo da janela: cansado, preocupado, um pouco culpado, mas não demais. O suficiente para que Elena acreditasse em mim.

Quando cheguei ao hospital, ela estava viva.

Pálida. Fraca. Com os lábios secos e um acesso venoso na mão.

Senti alívio.

E depois algo pior: incômodo.

Porque, se ela estava viva, eu teria que continuar mentindo.

Entrei no quarto dela com um buquê de flores caríssimas.

— Meu amor…

Elena não sorriu. Não chorou. Não perguntou onde eu tinha estado.

Apenas me olhou.

E naquele olhar já não havia amor.

Havia sentença.

— Você chegou tarde, Jorge.

Engoli em seco.

— Não havia voos, eu juro que tentei…

— Sente-se.

A calma dela me deu mais medo do que um grito.

Sentei-me.

Ela pegou um envelope pardo na mesinha e o deslizou na minha direção.

— Abra.

Minhas mãos gelaram.

Dentro havia fotos.

Eu com Valeria na piscina do hotel. Eu entrando na suíte. Eu pagando na recepção. Eu em um iate, com uma taça na mão, enquanto minha esposa estava prestes a morrer.

Senti o quarto inclinar.

— Elena, eu posso explicar…

— Não — disse ela. — Você já explicou tudo quando decidiu não vir.

Então a porta se abriu.

Mauricio entrou.

Mas não vinha sozinho.

Ao lado dele caminhava uma advogada com uma pasta azul e olhar de pedra.

Elena levantou os olhos para mim.

— Agora você vai pagar o preço de abandonar uma mulher que te deu a vida.

E, quando a advogada colocou os documentos sobre a cama, entendi que aquilo não era uma ameaça.

Era o começo da minha ruína.

Eu não conseguia acreditar no que estava prestes a acontecer…