PARTE 2
Os papéis sobre a cama pareciam mais pesados que pedras.
Divórcio.
Separação de bens.
Uso indevido de recursos matrimoniais.
Medidas urgentes sobre contas compartilhadas.
E, ao fundo, um documento que eu não reconheci.
— O que é isto? — perguntei, tentando recuperar a voz de empresário seguro que usava diante de bancos e políticos.
A advogada nem sequer piscou.
— Uma solicitação de medidas cautelares. Se o senhor se negar a assinar hoje um acordo razoável, amanhã logo cedo pediremos o congelamento de contas pessoais e empresariais enquanto o juízo analisa o uso de dinheiro comum durante uma emergência médica.
Senti falta de ar.
As contas empresariais.
Aí, sim, doeu.
Não no casamento. Não no coração.
No dinheiro.
— Vocês não podem tocar na minha empresa — eu disse.
Elena quase sorriu.
— Sua empresa?
A forma como ela disse aquilo me irritou.
— Sim, minha empresa. Eu a construí.
Mauricio soltou uma risada seca.
— Você usava o terno. Ela levantava os alicerces.
Virei-me para ele.
— E o que você ganha com isso? Sempre querendo posar de herói. Agora também quer ficar com minha esposa?
O tapa veio antes que eu pudesse terminar.
A palma de Mauricio cruzou meu rosto com tanta força que a enfermeira do corredor apareceu na porta.
Ninguém falou.
Meu orgulho gritou para que eu revidasse. Mas não fiz isso.
Porque Mauricio não tinha medo.
E isso me deu mais medo ainda.
— Volte a falar de Elena com essa sujeira na boca — disse ele, baixo — e eu vou esquecer que um dia você foi meu irmão.
Elena fechou os olhos por um segundo. A dor da cirurgia atravessou seu rosto, mas, quando voltou a olhar, estava firme.
— Meu pai colocou como garantia o terreno onde você construiu o primeiro galpão — disse ela. — Minhas joias pagaram suas licenças. Minha assinatura está em contratos que você nunca leu porque achou que amor significava obediência.
— Você está magoada — murmurei.
A advogada me olhou como se eu tivesse acabado de cavar minha própria cova.
Elena falou devagar.
— Você me deixou sozinha em uma maca, Jorge. Não insulte minha inteligência chamando dignidade de “mágoa”.
Eu queria gritar. Queria negar. Queria rasgar as fotos. Mas cada prova estava datada, carimbada, organizada. Mauricio havia conseguido os registros do hotel porque eu paguei com o cartão errado. Doña Carmen havia declarado que ligou primeiro para mim e que eu não atendi. O hospital tinha a hora exata da cirurgia. E Valeria, segundo a advogada, já havia sido vista usando presentes comprados com dinheiro de uma conta comum.
— Assine o acordo temporário — disse a advogada. — O senhor sai hoje de casa, o movimento das contas fica limitado e tudo se resolve em particular. Se não assinar, amanhã isso será público.
Público.
Essa palavra me atravessou.
A vergonha privada se negocia.
A pública caminha antes da gente, senta-se nas mesas dos clientes, sussurra nos escritórios dos bancos e transforma amigos em estranhos ocupadíssimos.
— Você não se atreveria — eu disse a Elena.
Ela me olhou com um cansaço que parecia vir de anos.
— Pedi a Deus para não morrer sendo esposa de um homem que desligou o celular. Ele me ouviu. Não teste o que mais sou capaz de fazer com o tempo que me resta.
Peguei a caneta.
Minha mão tremia.
Não porque eu amasse Elena como devia. Isso já tinha ficado claro.
Tremia porque assinar significava aceitar que existia um mundo em que ela podia viver sem me pedir permissão.
Assinei.
Cada traço parecia arrancar um pedaço da minha pele.
Autorização para que ela ocupasse a casa.
Restrições sobre retiradas empresariais.
Comunicação apenas por advogados.
Saída imediata do domicílio.
Quando terminei, Mauricio abriu a porta.
— Você pode ir — disse Elena.
Esperei uma lágrima. Uma hesitação. Um “Jorge, espere”.
Mas ela fechou os olhos como quem finalmente descansa depois de carregar peso demais.
Saí do hospital com a bochecha ardendo e a vida se desfazendo nas minhas mãos.
A primeira coisa que fiz foi ligar para Valeria.
Claro que sim.
Não liguei para meu advogado. Nem para o escritório. Nem para o banco.
Para Valeria.
Chamou seis vezes.
Caixa postal.
Escrevi: “Urgente. Me ligue.”
A mensagem apareceu como lida.
Ela não respondeu.
Então fui para casa.
Já não pensei “minha casa”.
Pensei “a casa”.
E essa diferença me atingiu antes de eu chegar.
Ao dobrar a rua, vi dois carros do lado de fora. Um era de Mauricio. O outro, de um chaveiro.
Desci do táxi sem esperar o troco.
— Que diabos vocês estão fazendo?
O chaveiro ficou parado. Mauricio, não.
— Cumprindo o que você assinou.
Doña Carmen estava junto à porta com uma sacola de flores para Elena. Ao me ver, seu rosto se encheu de nojo.
— O senhor deveria ter vergonha — disse ela.
— Cuide da sua vida.
Ela levantou o queixo.
— Foi o que fiz. Por isso sua esposa está viva.
Não soube o que responder.
O chaveiro terminou. A fechadura soou como uma sentença.
Entrei empurrando Mauricio.
Tudo estava igual, e por isso doía mais.
As fotos de família. A mesa de entrada. O quadro que Elena comprou em Tlaquepaque porque dizia que a beleza não precisava da permissão dos ricos.
Mas minhas coisas já não estavam lá.
Meus sapatos. Minhas chaves. Meus prêmios.
Na sala havia quatro malas perfeitamente organizadas.
Minha roupa dobrada. Meus relógios guardados. Meu passaporte em um envelope transparente. Meus remédios etiquetados.
Aquela organização me destruiu.
Elena não me expulsou com gritos.
Ela me eliminou como uma mancha que finalmente aprendeu a limpar.
— Eu não vou embora — eu disse.
Mauricio pegou o celular.
— Então eu chamo a polícia e os vizinhos terão o espetáculo que você merece.
Olhei para a rua.
Cortinas se mexendo.
As mesmas pessoas que eu havia convidado para jantares, doações e discursos sobre “a família” estavam vendo minhas malas na calçada.
Peguei as alças.